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A profundidade de um pires

Em várias coisas que vejo, leio e experiencio, só consigo pensar: a man could never!

Começar falando daquela frase de Fleabag em que “as mulheres têm uma dor embutida” já seria um clichê, mas é bem isso mesmo, os homens têm que escrafunchar essa dor inerente - spoiler: eles não acham e por isso morrem mais cedo.


A maioria das minhas amigas são mulheres. E não, não odeio homens, definitivamente - tenho até amigos que são rs. Mas é nítida a diferença de profundidade entre os sentimentos e mais ainda na expressão deles. Tenho amigas que são bem fechadas, mas mesmo elas, com poucas palavras, conseguem desenvolver melhor o novelo interno.


E mesmo sendo uma merda (ainda que eu seja uma mulher branca), se eu tiver que voltar a nascer, quero vir mulher de novo. Mentira. Acho que ser um homem cis, hétero, branco e ter o cérebro liso que nem o peito de um frango deve ser a melhor coisa do mundo. Não precisar fazer uma sinapse apenas porque tudo no mundo foi feito para você.


Li dois livros nos últimos meses que me atiçaram a escrever sobre isso. E esse blog aqui não tem nenhum objetivo a não ser eu conseguir colocar para fora e também exercitar a vergonha alheia que uma hora ou outra todo o mundo passa. Mas acho que isso também é bem “coisa de mulher”: ter coragem de dar a cara para bater.


No livro "Violeta" da Isabel Allende (que é minha autora favorita da vida), sei lá… Fiquei sentindo raiva dela a primeira metade do enredo todo, depois fiquei chorando porque sim, a vida das mulheres é muito injusta. Uma ficção que narra a história toda de uma mulher latino-americana que passou pela fome, seca, enchentes, guerras,


ditaduras, maus tratos, perdeu filhos, apanhou, amou, casou-se várias vezes. Olha, essa viveu.


E é contado num estilo de carta, como uma confissão ao neto padre (que ela não se conforma que é padre por ser muito bonito). É história de uma vida bem vivida. Com tudo o que uma pessoa pode sofrer e ser feliz. Mas o que me pegou mesmo foi que, vendo pela perspectiva da passagem do tempo, a protagonista só conseguiu um pouco de liberdade de duas maneiras: junto do irmão para ser uma espécie de “testa de ferro” para ela conseguir dinheiro - e assim ter um pouco mais de autonomia. E ter muito dinheiro (que ela só conseguiu por causa da ajuda de um homem “benevolente”).


O fato é que isso não mudou com o tempo. Hoje, ainda, para conseguir um pouco de libertação as mulheres precisam ou de um aval masculino ou de muito dinheiro que venha do próprio trabalho, porque ter dinheiro e vir de um homem pode até funcionar por um período, mas a chance de dar merda é muito grande.


Outro livro foi “O Acontecimento” de Annie Ernaux. Esse livro me destruiu. Fiquei chocada o tempo todo e ele é super curto. Cada página era um soco. O enredo parte do princípio da vontade de Annie de fazer um aborto, mas para mim nem é isso que pega mais. É como, em poucas páginas, ela consegue captar um sentimento geral que na verdade é extremamente individual.


É uma solidão tão observada que o sufoco da decisão é, na verdade, coletiva. Sem o juízo de valor de certo ou errado, bem e mal, sim e não… Acho que nesse livro eu percebi que as mulheres não têm o direito de serem ignorantes - nem burras. Eu não me dou esse direito. E, sendo bem chata, acho que mulher nenhuma deveria se dar.


Falei muita água só para resumir que “a man could never” não é necessariamente passar por essas coisas durante a vida - até porque, homens também abortam, casam, sofrem violências e etc. Mas para dizer que contar certos tipos de história, como uma paixonite, uma vontade estranha de se enfiar num casebre que só cabe você ou se amar e se odiar na mesma proporção que escrever um livro pode te ajudar. Realmente escrever sem vergonha, sem julgamento. Sentar e hablar das mais diversas atrocidades e desejos deliciosos que podemos pensar. Só percebo essa sutileza (essa habilidade íntima) com mulheres.

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