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Chamando por ela

Encosto a boca pertinho da parede do quarto. Gosto de deitar com as mãos para cima, tocando a parte gelada do lençol. Durmo de lado para ter menos dor de estômago. São sempre rituais noturnos para tentar dar algum sentido menos tosco para a vida.


Quando encosto minha boca na parede do quarto é porque sei que estou por um fio. Que tá insuportável viver dentro da minha cabeça. Ultimamente eu tenho feito isso quase todo o dia, o problema é que não sei há quanto tempo tenho feito isso todo o dia. Não sei se o colapso não veio porque quando encosto a boca na parede do quarto e sussurro “por favor, me diz o que estou fazendo aqui”, isso é o que afasta a explosão ou se ela só não chegou ainda porque não é a hora.


Digo outras coisas também. Ali, tenho a coragem de dizer bem baixinho as maiores pragas que existem no mundo - e só acontecem comigo. Conto para a parede: “hoje eu quis tocar fogo na cozinha porque o forno não funcionou.” Ou: “acordei antes do despertador e isso atrapalhou demais o meu sono.” Esses são os piores dias.


Quando acontece algo minúsculo, uma gota, e eu transformo num rio.

E sempre que acordo com as mãos para cima tenho a sensação de que sonhei muito. Acordo aumentando as histórias do sono. Sonhei que estava atravessando o rio num barco, mas acordei e disse que sonhei que era um boto nadando. O rio está ali, mas como é meu, conto do jeito que achar que devo.


Será que eu me perco nas versões ou minha cabeça faz justamente isso para me confundir? Vivo confusa. Cheia de certezas mal ditas e inconclusões cheias de provas. E quando deito para conversar sozinha percebo o quão perdida eu estou. Às vezes é tão estranho que só deito e falo “vai demorar muito?” Não sei se estou falando do colapso iminente, de uma mudança radical de vida, do sono ou da morte. Provavelmente de tudo.


Mas não deixo de rezar. Do meu jeito. Deitada com as mãos para cima como quem pede mais uma chance para Deus. “Por favor, não me confunda mais. Acho que não aguento.” E a ironia é que estou aguentando. Chamando e sussurrando essas outras soluções hipotéticas que não dependem de mim.

De vez em quando eu coloco a boca pertinho da parede do quarto e digo: “para todos os efeitos, você é um gênio. Se isso vai me livrar do fim, então sim, é genial”. Não estou falando de mim, obviamente.


Mas dessa mania de encher o peito de baboseiras enquanto a minha cabeça é traiçoeira demais para me deixar escapar de um pensamento doente. Então, como eu tenho ainda alguma ingerência, sussurro baixinho de novo “vai demorar para chegar?”. Até hoje, continuo acordando no dia seguinte.



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