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Conquistas com gosto de plástico

De vez em quando - muito mais do que a gente supõe e espera - vamos realizar coisas importantes passando por uma tempestade de merda.

Sem querer desanimar (ou me desanimar), a conquista por algo almejado durante muito tempo pode não ter o gosto e o resultado que a gente espera. Tipo aquele dia maravilhoso em uma festa em que você bebe todas, conversa com pessoas incríveis, vai para casa, dorme, acorda e BUM: uma ressaca monstruosa e a “boca com gosto de cabo de guarda-chuva”. A noite não deixou de ser boa, mas a que custo?

Exemplo besta, sei. Mas essa fase de realizações e acontecimentos com gosto de cabo de guarda-chuva resume muito bem o sentimento de estar conquistando e/ou fazendo algo importante ou feliz quando se está vivendo uma fase da vida turbulenta e cheia de problemas.


No livro “Meu ano de descanso e relaxamento”, de Otessa Moshfegh, o foco não é bem esse assunto, mas se tratando de uma jovem depressiva, cheia de rancor pela vida, odiando amar as pessoas e a ela mesma, teve uma coisa que me intrigou (e aqui vai um spoiler): com certeza ela teria um olhar diferente da vida se um dos seus pais não tivesse morrido enquanto ela estava trabalhando em uma galeria de artes e cursando algo que, mesmo que sutilmente falado no livro, ela gostava.


Claro que o luto toma uma parte considerável da vida de quem perde um ente querido e no caso da protagonista do livro - e aqui vão os meus dois cents -, todo o resto ficou com gosto de cabo de guarda-chuva. Tudo. Toda a sutileza e a vontade de amar alguém ou se amar não tinha mais o menor sentido. Além do que, ela era extremamente privilegiada e sabia muito bem disso. Poderia ter feito diversas coisas com o acesso que tinha, mas, infelizmente perder os pais tão jovem, creio eu, tem esse poder de tirar o brilho e os sonhos de qualquer pessoa.


E o que achei interessante, pensando melhor sobre todo o contexto do livro (o vício em remédios, querer dormir ad eternum e contestar a todo o momento o afeto que sente pela melhor amiga), é que uma perda imensa deixa um buraco na gente que conquista nenhuma consegue tirar o gosto de plástico que fica depois. A mona trabalhava numa galeria de artes famosa, não ganhava mal, não trabalhava muito e ironizava tudo isso. Pensando melhor, talvez se ela não tivesse vivido esse luto extremo, todo o contexto da conquista profissional teria tido um outro sentido.


Fica até ambíguo no livro entender se ela realmente achava o que fazia interessante - na minha leitura, ela era boa no que se propunha, mas tudo descarrilhou com a perda dos familiares.

Outro exemplo deste livro é a melhor amiga da protagonista, Reva, que foi promovida e transferida de escritório, mas só conseguia focar no término de relacionamento e como o cara era um lixo humano - tem outro motivo aqui para ela ter a transferência, mas deixo o ponto em aberto para que vocês leiam o livro. Francamente, quem nunca?


Fiquei refletindo em como várias realizações pessoais foram conquistadas no meio de um furacão de bosta e eu não conseguia pensar em nada, apenas porque fiquei vidrada nos problemas ao redor.

A verdade é que esse livro tem mais a ver com outras questões muito mais profundas (que pretendo desenvolver melhor em outros textos), mas queria deixar isso aqui exposto, pensando que a vida pode ter dessas mesmo. Uma vitória importante em determinada área pode vir junto de uma decepção amorosa, perda de dinheiro, demissão, luto, depressão, pandemia, desastres naturais, apocalipse, chegada dos alienígenas na Terra…


Enfim, não dá para ter tudo, mesmo ela, uma protagonista completamente alienada, riquíssima, branca, linda, linda e linda, não conseguia desfrutar de nada porque um acontecimento externo afetou demais sua vida. E não tem como não nos afetar. Às vezes vai ser com gosto amargo mesmo - ou, no caso dela, com gosto de Infermiterol.

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