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Espada de São Jorge

Joana acorda com o Sol e pega no tranco automaticamente para cumprir a rotina, mas tem algo nela que cresce como uma espada de São Jorge: precisa de pouco para se manter viva e se alastrar.

Acredita que consegue vencer um sentimento de apatia sempre que cumpre as tarefas e pode, vez ou outra, sair de casa para tomar uma cerveja. Essa crença que ela mesma vai mudar na marra esse sentimento arrebenta com a expectativa. É sempre a cerveja a mais que poderia ter sido a menos. Ou um pensamento que virou fala que poderia ter ficado só na cabeça.

Um ciclo intenso de: “Se eu tivesse vendido aquela bicicleta velha e usado o dinheiro para inteirar a compra de uma câmera fotográfica, certamente seria a Robert Capa da minha geração”. Joana vendeu a bicicleta para ir viajar para Paraty sozinha, não tirou uma foto - ela tem um iPhone.

Nesses momentos esse sentimento inerente fica parecendo uma fina camada de pó de uma casa que parece limpa. Dá até para viver ali, mas você sabe que uma hora o chão fica sujo e mesmo com a sujeira escondida, basta pisar no chão descalça para ver a podridão da sua própria casa.

E vai fazer o que? A bicicleta velha foi comprada num momento de epifania em que ela jurou de dedinho que iria conhecer a cidade inteira pedalando. Pedalou 3 vezes, na terceira vez, caiu e se estressou com a falta de ciclovia da cidade.

Voltou para casa carregando a bicicleta e jurando nunca mais se sujar de graxa de correia. Vendeu sem pensar e foi para Paraty sem pensar. Tudo por causa desse sentimento que mora bem fundo ali, nada escondido, mas cheio de não me rele.

Precisa só de um pouco de tempo e uma motivação minúscula para ele colocar as manguinhas de fora e dizer “oie, criei mais um raminho aqui, viu?!” E tentando mudar essa vontade imensa de não fazer nada nunca mais, lá vai Joana executar a coisa mais bisonha do planeta, mas que dê 1 segundo de serotonina.

É ótima para fazer, mas não sabe planejar. Acaba se arrependendo no minuto seguinte da ideia genial que ela teve. E aí volta o sentimento, que não tem voz, mas te abraça inteira e te leva para o fundo da alma. Ali ninguém te acha. Ninguém te socorre. É ali que Joana mora no seu mais íntimo, dentro da própria melancolia.

Passa dias e dias abraçada com ela, e o pior: ela performa tão bem que ninguém imagina. Num autoflagelo randômico, uma tristeza tão colossal que seria capaz de rasgar o próprio peito ou abrir um buraco na cabeça só com o poder do pensamento.

Todos os arrependimentos e as ações desmedidas moram ali. E a mente adora nos enganar. Cria memórias infundadas, embaraçosas, vergonhosas e culpabilizastes só para ficar agarrada nessa espada de São Jorge que não te protege nem de você mesma.

Nos dias menos piores, a brecha das conversas jogadas fora vão parar de novo dentro desse jardim no limbo. Para ela é isso, nada é inteiramente jogado fora. E se sente confusa por ser uma pessoa extrovertida, mas tão agarrada à melancolia. Acaba dissociando da vida e cria uma plantação de Agave Azul para transformar em tequila depois. Tudo isso dentro de si mesma.

Essas ressacas nem sempre físicas acabam indo para esse lugar de choro e repasse de vidas passadas. Só que Joana nem chora mais. Anos e anos de terapia a ajudaram a acolher o sentimento, mesmo que ela lute contra comprando uma bicicleta ou vendendo depois.

E volta o: se eu fizesse isso, não estaria onde estou. Verdade. Mas fez? Não fez. Agora tem que focar nessa produção de tequila hipotética, irônica e metafórica. Haja Agave Azul.

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